POR CONTARDO CALLIGARIS
EM MAIO PASSADO, durante uma visita ao santuário de Fátima, o papa Bento 16 declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão entre os mais “insidiosos e perigosos desafios ao bem comum”.
Atualmente, quase todas as igrejas cristãs (curiosamente alinhadas com as posições do papa) negociam seu apoio aos candidatos à presidência cobrando posições contra a descriminalização do aborto e contra o casamento gay.
Em 2000, segundo o censo, havia, no Brasil, 125 milhões de católicos, 26 milhões de evangélicos e 12 milhões de sem religião. É lógico que os principais candidatos inventem jeitos de ficar, quanto mais possível, em cima do muro -tentando satisfazer o lobby cristão, mas sem alienar totalmente as simpatias de laicos, agnósticos e livres pensadores (minoritários, mas bastante presentes entre os formadores de opinião).
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Por Levi Araújo

Estou certo de que o jeito cristão de ser profissional, ser empresa e fazer negócios pode contribuir significativamente para a construção de uma cultura política republicana e democrática de resistência civil a qualquer reedição absolutista e totalitarista em nosso país.
Contrariando as mais significativas conquistas da Reforma Protestante, a maioria dos crentes evangélicos brasileiros, conscientes ou não, estão reivindicando uma participação no poder que lembra muito a parceria corrupta que havia nos séculos XVII e XVIII, quando as monarquias européias recebiam a benção-sanção da Igreja e da nobreza.
Essa nauseante atração pelo poder define doutrinas e práticas. Como se esquecer da doutrina do direito divino dos reis que prestavam contas somente a Deus e ao clero? Como resistir à vocação para lançar bases bíblicas e religiosas interesseiras onde os nossos parceiros do poder sejam respeitados pelos crédulos úteis que crerão que eles governam pela vontade de Deus?
Para muitos, o Brasil só será definitivamente do Senhor Jesus quando elegermos o nosso Luis XIV divinamente aconselhado pela nossa versão evangélica de Jacques Bossuet para institucionalizarmos de vez o que cremos, ou como escreveu Contardo Calligaris, até que “tenhamos uma sociedade em que seja crime tudo o que, para as Igrejas, é pecado”.
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